Vivemos um tempo em que a subjetividade é atravessada por uma lógica de produtividade permanente, e as plataformas digitais se tornaram o principal palco onde essa dinâmica se intensifica. Na chamada cultura do desempenho, o indivíduo é convidado a transformar cada gesto, opinião e momento íntimo em um produto quantificável.
Não se trata apenas de viver, mas de performar a própria vida de modo constante. As redes sociais, como lembra Pierre Bourdieu, funcionam como arenas simbólicas nas quais se disputa reconhecimento, prestígio e legitimidade. Essa disputa é mediada por métricas como curtidas, visualizações e seguidores, que operam como uma espécie de capital simbólico digital. Embora pareçam democráticos, esses mecanismos aprofundam desigualdades e pressões subjetivas.
A ansiedade digital surge como efeito direto desse cenário. A exigência de estar sempre presente, atualizado e engajado cria uma sensação de vigilância contínua. Michel Foucault argumenta que a modernidade produziu regimes de disciplinamento nos quais o sujeito internaliza a norma e vigia a si mesmo, e esse processo encontra nas redes sua expressão mais intensa.
O corpo e a mente passam a ser moldados por uma lógica de performance que opera em ciclos de comparação permanente. Antes o desempenho era medido em ambientes institucionais como a escola, o trabalho ou os espaços públicos, mas hoje ele se estende à intimidade e ocupa a vida cotidiana. A linha que separava o público do privado se enfraquece diante da lógica da exposição constante.
Byung-Chul Han afirma que vivemos sob a tirania do “projeto de si”. Nessa forma de subjetividade neoliberal, cada indivíduo é levado a ser empreendedor de sua própria imagem, responsável por sua ascensão e por seu fracasso. As dificuldades são interpretadas como falhas pessoais, e não como efeitos estruturais de um sistema que exige desempenho contínuo.
Nas plataformas digitais, esse mecanismo é intensificado pelos algoritmos, que reforçam comportamentos performativos ao recompensarem conteúdos que geram engajamento imediato. O sujeito passa a adaptar seu humor, ritmo e até mesmo seus posicionamentos para atender às expectativas da máquina e do público.
A ansiedade digital se alimenta dessa busca por relevância. Pesquisas na sociologia da tecnologia mostram que a economia da atenção produz um estado de hiperestimulação, reduzindo a capacidade de foco e intensificando sentimentos de inadequação. Cada notificação carrega a promessa de validação, enquanto cada ausência de engajamento sinaliza uma forma de invisibilidade. É um jogo marcado pela opacidade, pois o algoritmo funciona como uma caixa-preta que redefine silenciosamente o que importa e o que será mostrado. O sujeito vive em um estado constante de incerteza, tentando decifrar padrões que mudam e escapam ao seu controle.
Outro elemento central é a estética da felicidade que predomina nas redes sociais. A sociologia da imagem tem demonstrado que a estetização do cotidiano cria um abismo entre o que se vive e o que se mostra. Esse descompasso produz um mal-estar característico da contemporaneidade, pois o indivíduo sente que nunca alcança o ideal que ele mesmo encena. O feed se converte em um espelho distorcido que devolve, em forma de brilho, a sombra daquilo que falta.
A ansiedade digital não é um fenômeno apenas psicológico. Ela é social, estrutural e política. A intensificação da cultura do desempenho está diretamente relacionada à entrada das plataformas em todas as esferas da vida social.
As plataformas reorganizam comportamentos, moldam relações, orientam desejos e instituem novas normas de convivência. Como destacou Manuel Castells, vivemos em uma sociedade em rede onde os fluxos de informação e reconhecimento se tornam centrais para a existência. O sujeito da cultura digital não é apenas produtor de conteúdo, mas também produto da lógica que o captura.
Compreender essa cultura de desempenho implica questionar o imperativo da produtividade total e recuperar espaços de silêncio, pausa e imperfeição. Implica também reconhecer que a ansiedade digital não é falha individual, mas consequência de estruturas sociais que transformam o viver em espetáculo e o sujeito em mercadoria de si mesmo.
A sociologia digital tem o papel essencial de iluminar essas tensões, mostrando que a exaustão contemporânea nasce muito menos do indivíduo e muito mais das arquiteturas sociais e tecnológicas que moldam sua experiência.
