A adultização é um dos sintomas mais visíveis de uma época em que as fronteiras simbólicas entre infância e vida adulta se tornam nebulosas, tanto pelas condições estruturais da sociedade quanto pelas lógicas culturais produzidas pela mídia e pelas tecnologias digitais.
No centro desse fenômeno está a tensão entre desenvolvimento humano, expectativas sociais e desigualdades, que atravessam o modo como tratamos, percebemos e projetamos significados sobre as crianças. Longe de ser apenas uma mudança individual ou familiar, a adultização expressa um conjunto de práticas sociais que revela como a infância, enquanto construção histórica, está sendo reconfigurada por dinâmicas econômicas, de consumo e de poder.
Sob uma perspectiva sociológica, Philippe Ariès demonstrou que a infância é uma invenção histórica, fruto de transformações profundas ocorridas na modernidade. Isso significa que a forma como enxergamos as crianças, seja como frágeis, inocentes e protegidas, seja como responsáveis, produtivas e “capazes” de lidar com pressões adultas, depende de valores sociais que mudam ao longo do tempo.
Na atualidade, essas representações estão fortemente marcadas pela hiperexposição, pela mercantilização e pela performatividade. A criança, que deveria ser vista em sua especificidade, passa a assumir papéis associados ao mundo adulto: produtividade, estética, maturidade emocional e responsabilidade. Esse deslocamento aparece tanto nas tarefas domésticas e no cuidado dos irmãos quanto nos espaços digitais em que crianças se tornam influenciadoras, produtoras de conteúdo e microcelebridades.
A adultização também pode ser compreendida pela psicologia social, que evidencia como estereótipos e normas moldam percepções e expectativas. O conceito de adultification bias, discutido em pesquisas sobre raça, mostra que crianças negras são frequentemente percebidas como mais velhas e menos inocentes do que crianças brancas.
Esse viés produz efeitos concretos, como punições escolares mais severas, maior vigilância policial e menor sensibilidade ao sofrimento emocional. Essa dimensão racializada encontra eco no Brasil, onde desigualdades estruturais fazem com que crianças pobres e negras sejam tratadas como “adultas” mais cedo, seja pela necessidade econômica, seja pelos mecanismos de controle social que recaem sobre seus corpos.
Pierre Bourdieu ajuda a compreender a lógica simbólica que organiza esse fenômeno ao evidenciar como poder, capital e habitus orientam expectativas e práticas sociais. Em famílias e comunidades com limitado capital econômico, social ou cultural, a inserção precoce de crianças em tarefas adultas aparece como necessidade objetiva e como internalização de um habitus marcado pela precariedade.
Em grupos de maior renda, a adultização se manifesta como sofisticação precoce, estimulada por consumo cultural, estéticas adultas, participação em redes sociais e pressão por performance. Em ambos os casos, o processo não é resultado de escolhas individuais isoladas, mas de pressões sistêmicas que moldam comportamentos.
A lógica algorítmica das redes sociais intensifica esse processo, pois as plataformas premiam engajamento e a exposição de crianças costuma gerar atenção e monetização. A criança passa a ser vista como conteúdo, e sua imagem é investida de valores estéticos e comportamentais típicos do universo adulto, incluindo sexualização, maquiagem e performatividade emocional. Trata-se de um processo de reificação, em que a imagem infantil se torna mercadoria e o valor de troca se sobrepõe ao valor humano da infância.
Do ponto de vista psicológico, a adultização rompe etapas essenciais do desenvolvimento. Erik Erikson descreve a infância como um período marcado por tarefas psíquicas fundamentais, como confiança, autonomia, iniciativa e imaginação.
Quando essas etapas são aceleradas ou distorcidas, surgem impactos emocionais profundos, como ansiedade, autoestima fragilizada, dificuldades de pertencimento e sensação de inadequação. A criança, pressionada a “ser grande”, internaliza uma lógica de desempenho que compromete a espontaneidade e o brincar, elementos reconhecidos por Vygotsky como estruturantes da aprendizagem e da formação da consciência.
É necessário também reconhecer que a adultização opera como dispositivo de desigualdade. Crianças pobres tendem a ser adultizadas pela necessidade de sobrevivência; crianças negras pela negação social de sua inocência; crianças expostas intensamente à lógica do consumo são adultizadas pela erotização e pelo imperativo da visibilidade digital. Em todos os casos, há uma erosão do direito à infância previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente e na Convenção Internacional dos Direitos da Criança. O resultado é a produção sistemática de vulnerabilidades que se acumulam ao longo da vida.
Enfrentar a adultização exige mais do que orientar famílias. Requer repensar as estruturas sociais que a produzem, formular políticas de proteção digital, combater o racismo institucional, reduzir desigualdades e formar profissionais capazes de reconhecer as especificidades da infância. Exige também uma mudança cultural que devolva às crianças o direito de viver plenamente a infância, com seus ritmos próprios, afetos e descobertas.
A adultização não é apenas um problema individual ou familiar. É um espelho das contradições de nossa sociedade. Reconhecê-la é o primeiro passo para reconstruir um pacto social que proteja a infância da aceleração, da violência simbólica e do mercado das aparências, reafirmando a criança como sujeito pleno de direitos, e não como projeto antecipado de adulto.
