“Está nascendo um novo líder”. O verso de Zé do Caroço, de Leci Brandão, permanece como uma das mais potentes metáforas sobre a formação de lideranças populares no Brasil. A figura de José Mendes da Silva, que mobilizava a favela por meio de alto-falantes improvisados, representa uma forma de autoridade política enraizada no território, na experiência cotidiana e na organização comunitária. Zé do Caroço é símbolo de um Brasil em que a liderança emergia da prática coletiva, da solidariedade e das estruturas vividas da classe trabalhadora. Essa imagem de uma liderança que nasce do chão, da vizinhança e do conflito concreto contrasta profundamente com a forma como novas figuras políticas se constituem na contemporaneidade.
Quarenta anos depois da canção, o “novo líder” já não se ergue necessariamente do morro ou da fábrica, mas das plataformas digitais. A política se reorganiza em torno da visibilidade, da comunicação e das disputas simbólicas. O deslocamento histórico da militância territorial para a militância comunicacional expressa a crise de renovação da esquerda brasileira, que ao perder parte de suas estruturas de base passa a disputar influência no mesmo terreno que a extrema direita, o ambiente digital. É nesse cenário que surge a figura de Jones Manoel, intelectual comunista, educador popular e ativista que se tornou um dos principais nomes da esquerda contemporânea.
A trajetória de Jones dialoga diretamente com esse movimento de reorganização da política. Suas análises sobre a crise da esquerda partem de uma reconstituição crítica do ciclo petista. Para ele, o ponto de inflexão ocorre quando o governo Dilma abandona o programa eleito e adota o ajuste fiscal de Joaquim Levy. “Findada a eleição, o governo petista resolveu praticar mais um estelionato eleitoral”, afirma ao situar o colapso do lulismo na ruptura entre governo e base social. Essa crítica retoma elementos já identificados por autores como André Singer e Ruy Braga, que apontaram a exaustão do pacto distributivo e o enfraquecimento da capacidade mobilizadora do campo progressista.
Jones, no entanto, amplia o diagnóstico ao afirmar que a crise também é organizativa e teórica. Ele observa que sindicatos, movimentos e partidos perderam sua função formativa. “É raríssimo achar no Brasil um sindicato que tenha preocupação sistemática com formação política”, lamenta. Essa constatação indica a erosão dos espaços tradicionais de produção de intelectuais orgânicos e de renovação política. Sem formação, sem base e sem estratégia, a esquerda torna-se dependente da universidade, que por sua vez reproduz um modelo elitista, neoliberal e distante das classes populares.
É nesse vácuo que o digital aparece como novo campo de disputa. A liderança passa a depender da capacidade de produzir sentido, comunicar sínteses e formar públicos, tudo isso em meio a algoritmos, métricas de engajamento e hiperexposição. Pierre Bourdieu lembraria que toda autoridade simbólica precisa de reconhecimento; nas redes, esse reconhecimento se torna instável e condicionado à lógica da performance. O intelectual que antes militava na associação de bairro hoje disputa atenção com memes, polêmicas e enquadramentos de poucos segundos.
Jones Manoel se move nesse campo de maneira singular. Ele transforma o ambiente digital em espaço de formação política e aproxima a tradição marxista das novas gerações. Seu canal, seus textos e suas entrevistas funcionam como instrumentos de pedagogia popular, recuperando práticas históricas de educação política em linguagem audiovisual acessível. Essa atuação reatualiza a figura do intelectual orgânico de Gramsci, que articula teoria e prática, reflexão e mobilização. Jones constrói um público fiel sem diluir o rigor analítico e busca equilibrar complexidade e clareza, algo próximo da fidelidade simultânea à ciência e ao povo descrita por Bourdieu.
Ao defender a nacionalização do marxismo, ele recupera a tradição nacional-popular e critica o colonialismo cultural que hegemoniza parte da academia. A influência de Clóvis Moura, Nelson Werneck Sodré, Ruy Mauro Marini e Darcy Ribeiro aparece como contraponto às modas teóricas importadas que, segundo ele, pouco dialogam com a realidade brasileira. Sua crítica à adoção irrefletida de discursos pós-modernos e decoloniais não rejeita a importância das opressões, mas propõe recolocá-las no interior das dinâmicas de classe, exploração e dependência. Essa postura o coloca em tensão com setores liberais do movimento negro e também com correntes que rejeitam qualquer abordagem das opressões em nome de uma suposta ortodoxia, posição que Jones descreve como conservadora e equivocada.
O que torna Jones interessante para pensar a crise de renovação da esquerda é justamente essa posição híbrida. Ele não é um quadro partidário tradicional, não é um acadêmico convencional e não é um militante de base no sentido clássico. Representa uma forma nova de liderança que nasce da intersecção entre experiência periférica, formação teórica autodidata, militância digital e engajamento político. Sua influência emerge de uma combinação rara entre leitura rigorosa, narrativas públicas e capacidade de dialogar com públicos diversos, do marxista tradicional ao jovem que descobre política pelo TikTok.
Sua liderança também revela os limites desse novo ecossistema político. A autoridade do intelectual digital depende da permanência numa arena volátil e fragmentada. A militância organizada em torno de conteúdos pode não se traduzir em práticas coletivas. As redes ampliam o alcance, mas não substituem a base; produzem audiência, mas não necessariamente organização. Jones reconhece esse desafio quando afirma que “temos urgência de um profundo ciclo de formação de novos dirigentes”. Seu diagnóstico aponta para um retorno àquilo que a esquerda abandonou: formação política, organização popular e estruturação de um projeto nacional.
A figura de Jones Manoel ilumina um momento de transição. Ele surge como liderança possível num cenário em que o “Zé do Caroço” tradicional, o líder que fala ao microfone para reunir a comunidade, cede lugar ao comunicador digital que mobiliza milhares por meio de vídeos, lives e debates. Mas a metáfora permanece: trata-se ainda de falar ao povo, de convocá-lo à ação, de construir consciência. O alto-falante mudou. O papel político segue o mesmo.
Resta saber se lideranças como Jones Manoel serão capazes de transformar seguidores em base social, base social em militância e militância em força política. A resposta ainda está aberta. Mas sua trajetória mostra que, apesar da crise das estruturas tradicionais, a esquerda continua a produzir intelectuais com potencial de liderança, desde que consigam articular teoria, história e prática e reconstruir a ponte entre rede e território.
Talvez assim seja possível afirmar novamente que um novo líder está nascendo, não mais do alto de um morro com caixas de som improvisadas, mas no cruzamento entre crítica radical, meios digitais e compromisso com a transformação social.
